
"Particularmente, tive a nítida certeza de que estamos no caminho
certo, uma vez que levamos exemplos reais de conceitos que, muitas
vezes, ficam apenas no debate. E, nesse caso, aquilo sobre o que os
profissionais de mídia estavam debatendo como um projeto futuro, já
faz parte das nossas grades de programação." |
Depoimento
"Estamos reescrevendo nossa própria
trajetória"
Maria Paula Schmidt
Entre os dias 24 e 26 de
setembro de 2009 tive a oportunidade de paticipar de um encontro
internacional de mídia, chamado Images and Voices of Hope (Imagens e Vozes
de Esperança) www.ivoh.org.
Depois de 3 dias reunidos,
num debate profundo e gratificante, acredito que tenha ficado entre os
cerca de 90 participantes deste meeting, a certeza de que estamos
reescrevendo nossa própria trajetória e, por conseguinte, as histórias que
queremos contar. Assim como afirmou o documentarista americano David
Fanning, passamos por um momento de transição, em que a multiplicidade de
ferramentas permite aos profissionais de mídia reinventarem suas tarefas,
contando com a participação efetiva da sociedade e contribuindo, dessa
forma, para a manutenção da democracia e a construção de um mundo mais
justo e em equilíbrio com as necessidades do planeta.
Um mundo onde todos podem
ser agentes da mudança. Onde a internet se apresenta como uma plataforma
para a participação coletiva, dando voz ao que por aqui chamou-se de
“citizen journalism” (algo traduzido como jornalismo cidadão). A revolução
digital muda não apenas nossa forma de assistir aos programas preferidos,
mas também altera a maneira como eles são pensados, produzidos e exibidos.
O encontro é organizado pela
jornalista americana Judy Rogers, com experiência em canais como CBS e
CBS-Fox. O assunto em pauta era o poder da mídia como agente de
transformação em tempos difíceis.
Entre os destaques
apresentados este ano, podemos citar o site Global Voices, que recebe
mensagens, textos e arquivos postados do mundo inteiro, em todas as
línguas. Outro exemplo é uma iniciativa chamada Ted.com, uma espécie de
portal muito popular nos Estados Unidos para a exibição de palestras,
normalmente restritas aos exclusivos convidados da platéia e que passam a
ganhar maior visibilidade na web.
Ainda
segundo Fanning, longe de ser temida, a revolução tecnológica deve ser
analisada sob o prisma das possibilidades, uma vez que as diferentes
mídias podem se complementar ao invés de competirem. Apenas para citar um
exemplo, ainda de acordo com o Produtor Executivo do programa Frontline, a
internet pode dar suporte maior à televisão, uma vez que a web tem
condições de absorver matéria-prima não aproveitada na concepção
tradicional de programas, criando links e aproximando o público de
assuntos que, assim, ganham maior visibilidade e dimensão. Outro fato
relevante, segundo Faning, é que os jornalistas tradicionais precisam
estar preparados para usar novas ferramentas e, por exemplo, saber como
upload (publicar na internet) textos, fotos, comentários para surfar com
maestria a onda digital.
Com a novidade da TV digital
e com uma maior autonomia para o espectadores escolherem sua programação,
talvez os programas gravados deixem de ser vistos ao mesmo tempo, com
exceção dos shows e noticiários ao vivo. Isso muda a maneira como a tv
sempre foi vista e se consolidou, transformando uma experiência de
convívio social, em algo individualizado e acessível por um comando.
Todavia, o que importa é manter a conectividade com o público, aumentar a
confiança e a credibilidade diante de um leque cada vez mais amplo de
opções.
É importante referenciar que
o encontro aconteceu nas Montanhas de Castskill, ao norte de Nova York, no
meio de um bosque que ganhavam tons avermelhados com a proximidade do
outono. Peace Village, como o nome sugere, é um lugar tranqüilo, fértil
para a reflexão. Esta fazenda funciona como um campus da Universidade
Espiritual Brahma Kumaris, uma ONG internacional dedicada à valorização do
ser humano, com sede na Índia e escolas espalhadas em 100 países. Esta ONG
tem status consultivo geral junto ao Conselho Econômico e Social das
Nações Unidas e status consultivo junto ao UNICEF.
Foi lá que jornalistas,
publicitários, artistas, músicos e outros profissionais de mídia se
reuniram para repensar o próprio trabalho. Em sua décima edição, o
encontro teve como tema The Social impact of Images and Voices of Hope in
Challeging Times.
A lista de todos os
participantes está acessível em:
http://www.ivoh.org/world-summit-2009-participants
Outro caso de sucesso,
apresentado no Summit, foi a Link TV, um canal por satélite, feito com
contribuição de emissoras de vários continentes, com o objetivo de mostrar
o mundo aos americanos, reunindo programas e reportagens que não teriam
espaço nas TV abertas mais tradicionais.
Nestes 3 dias de encontro,
muito falou-se em inspiração. E o painel sobre publicidade e marketing foi
bastante rico. Um dos projetos apresentados mais interessantes foi a nova
campanha, criada para o encontro mundial de lideres, para a definição do
futuro do clima do planeta (renovação do Protocolo de Kyoto), que vai
acontecer em 7 de dezembro, na Dinamarca. A campanha, criada pela Ogilvy
Earth, troca as iniciais da capital do pais a fim de alcançar uma
mensagem: assim, Copenhagen vira Hopenhagen, um local onde estará
concentrada toda a esperança do mundo para que os países cheguem a um
acordo que permita evitar as terríveis conseqüências das mudanças
climáticas. “When people lead, leaders follow” and “Maybe you should be
there são os slogans da campanha, que podem ser assim traduzidos: “Quando
o povo lidera, os lideres seguem” e “Talvez você devesse estar lá”.
Outro exemplo marcante foi a
campanha da Unilever para o sabonete Dove, sobre a “verdadeira beleza”. A
idéia aqui, portanto, era de tocar, inspirar as pessoas para que se crie
uma nova consciência.
Com toda a humildade que
reservo para este momento, em que divido um pouco sobre o que vivi e
refleti nestes dias em Nova York, é que volto orgulhosa de ser brasileira
e de trabalhar na TV Globo, uma emissora que respeita as diferenças,
incentiva o debate e espalha solidariedade. Os dois cases apresentados por
mim foram recebidos com aplausos e admiração. A campanha Criança
Esperança, com seus 24 anos de existência, de certa forma já vinha
antecipando a necessidade de estarmos juntos num momento de desafios e
instabilidade, como o que o mundo enfrenta hoje. Pude perceber em cada
rosto da platéia a satisfação expressa num sorriso de esperança. Assim
como o Via Brasil, programa da Globonews, também foi recebido como um
exemplo de como o telejornalismo pode atuar como agente para uma
transformação, ao dar visibilidade para os bons exemplos e histórias de
sucesso.
Particularmente, tive a
nítida certeza de que estamos no caminho certo, uma vez que levamos
exemplos reais de conceitos que, muitas vezes, ficam apenas no debate. E,
nesse caso, aquilo sobre o que os profissionais de mídia estavam debatendo
como um projeto futuro, já faz parte das nossas grades de programação.
Ao participar do IVOH Summit
2009, acredito estar cumprindo com o meu senso de responsabilidade em
relação a profissão que escolhi e correspondendo à confiança que em mim
foi depositada.
Para que se torne uma
corrente forte e duradoura, a cooperação requer invisibilidade no fazer e
desapego pelo resultado. Assim, o servir se apresenta como um caminho e
não um destino final. Em cada palestra, painel, encontros informais e
períodos de reflexão, o desejo de não permanecermos apegados a uma velha
natureza e deixar surgir o novo.
É preciso abrir nossos
corações para aquilo que não vemos, mas que sentimos ser o certo. A
cooperação é uma força invisível que toma proporções gigantescas quando os
povos do mundo se reúnem pelo bem de todos.
Ainda há muito a ser feito.
O momento é de incertezas, mas também de possibilidades. E preciso
enxergar o novo que se ergue, assim que o velho se desfaz. Pensamentos,
ações e hábitos elevados nos levam pelo caminho da felicidade. E nossa
natureza de paz e alegria se faz ouvida, onde antes havia dúvida e
preocupação. Lembremo-nos que pró-atividade, benevolência e solidariedade
são palavras que ganham verdadeiro sentido quando postas em prática. E que
ao atingir um grande número de pessoas, a cultura de massa tem um papel
fundamental na manutenção da democracia e na busca por justiça social.
Maria Paula Schmidt
Carvalho trabalha desde 2000 como repórter e apresentadora da TV Globo e
da Globonews, do Rio de Janeiro, onde reside. É formada em Jornalismo pela
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e tem mestrado em
Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro. Maria.Schmidt@tvglobo.com.br
- m.paula.carvalho@hotmail.com
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