[Especial]

Do empreendedorismo empresarial ao social

Mudanças de paradigmas, em curso desde a segunda metade do século XX, geraram novo conceito e prática de empreendedorismo

Vanessa Brito, da Agência Sebrae

A palavra empreendedorismo foi popularizada no Brasil, se muito, nos últimos dez anos. Inicialmente esteve atrelada às atividades de mercado, que visam lucro, objetivos essencialmente econômicos, nos moldes capitalistas mais convencionais. Até pouco tempo, era considerada uma redundância falar em "empreendedorismo empresarial". Muitos ainda continuam utilizando a palavra nesse sentido, mas o século XXI surpreende com novos paradigmas e rápidas alterações etimológicas. O que outrora era impensável, é hoje fato. Assim acontece com a expressão "empreendedorismo social".

O surgimento do empreendedorismo social é fortemente influenciado pelo empreendedorismo empresarial, mas apresenta características próprias, segundo estudiosos e publicações especializadas. O empreendedorismo privado é individual, voltado à produção de bens e serviços para o mercado e visa satisfazer as necessidades dos clientes e ampliar as potencialidades de negócio. Sua medida de desempenho é o lucro.

Já o empreendedorismo social é coletivo, produz bens e serviços para a comunidade, tem foco na busca de soluções para os problemas sociais e visa resgatar pessoas da situação de risco social e promovê-las. Sua medida de desempenho é o impacto social.

“Empreendedores sociais são pessoas que têm visão estratégica, habilidades e determinação, não descansam enquanto não resolverem os problemas sociais, não apenas na sua localidade, mas em todo o sistema”, define Bill Drayton, ex-consultor da Mckinsey & Co e fundador da Ashoka, uma organização não-governamental norte-amerciana, criada em 1980, que atua capacitando e estimulando o autodesenvolvimento dos processos de gestão de organizações sem fins lucrativos, que tragam resultados de impacto social.

Ashoka era uma um líder indiano, que viveu no século III a.c, e em sânscrito significa “ausência de tristeza”. Por meio de suas ações inovadoras criou um sistema de saúde e ensino público que revolucionou a vida social em sua época.

Vocabulário do século XXI

O novo vocabulário, em plena gênese nessa primeira década do século XXI, contém conceitos, palavras e expressões desconhecidos pela maioria das pessoas: sustentabilidade; desenvolvimento sustentável; capital social; capital natural; comércio justo; inclusão digital; controle social; governança; responsabilidade social; entre outras. Muitos utilizam essas expressões sem saber exatamente o que significam. Ainda não houve tempo suficiente para a mídia e o grande público assimilá-las. Assim também ocorreu em séculos anteriores, quando surgiram novos termos, que traduziam visões inovadoras nas áreas da sociologia, economia, geopolítica, filosofia, científica, entre tantas outras.

Os novos focos e abordagens refletem a busca incessante da humanidade por soluções para seus grandes dilemas, como a fome, a concentração de riqueza, a má distribuição de renda, a exclusão social, os índices altíssimos de mortalidade infantil nos países em desenvolvimento, o esgotamento dos recursos naturais. No início dos anos 80, o ato de empreender, até então relacionado apenas às atividades empresariais, também sofreu transformações, adquirindo contornos sociais.

Segundo o dicionário mais consultado da Língua Portuguesa no País, de Aurélio Buarque de Hollanda, empreender é “deliberar-se a praticar, propor-se, tentar (empresa laboriosa e difícil)”. Empreendedor “é aquele que empreende, ativo, arrojado, cometedor”. Parece que o Aurélio estava à frente ao não vincular o significado da palavra empreendedor à de empresário. Ou será que a próxima novidade do século XXI será o conceito de “empresário social?"

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25.02.2005