
Mídia que Constrói -
Imagens Inspiradoras
A foto oficial
Aquela mãe iraquiana teve
dúvidas antes de abordar o soldado que fazia prontidão defronte à Casa de
Detenção. Como solicitar ajuda para uma simples imagem, diante de alguém
com responsabilidades tão rígidas? O uniforme, o fuzil último tipo, a pose
incontinente.
Não era possível. Era
quase certeza de que a resposta seria negativa. Aquela mãe iraquiana era
capaz de compreender que aquele soldado estadunidense não ficaria
sensibilizado sobre como fora agonizante a ausência do filho em casa. Sua
companhia, suas palavras de apoio em um momento tão difícil pelo qual
passava o país. Como os dois haviam estreitado sua ligação depois da
guerra. O soldado, ela tinha razões para saber, não perderia seu tempo
oficial para uma atitude daquelas. Ele não poderia compreender que o filho
fora detido injustamente e que nenhum filho diante de uma mãe é culpado.
Mas os momentos da
libertação foram se aproximando, a burocracia foi se dissipando, papéis
eram verificados inúmeras vezes e ela ainda não havia se decidido a pedir
ou não o favor para a foto que guardaria como um dos momentos mais felizes
de sua vida, mesmo com todo o recente dissabor.
Tirou a máquina
fotográfica que trazia guardada entre os trajes e em lugar seguro na sua
casa. Ela a utilizava para registrar os momentos felizes que encontrava no
dia a dia, mesmo diante de toda a destruição. Aquela mãe iraquiana tinha
plena convicção de que o sofrimento um dia cessaria, por que sabia que
sofrimentos um dia acabam; que as lágrimas um dia param de cair; que a
saudade e a dor são provisórias. Sim, naquele dia da libertação do filho
ela tinha plena certeza de que a dor e a melancolia não são sentimentos
permanentes, mas breves manifestações do Universo, para nos proporcionar
crescimento, aprendizado e progresso.
E foi com esta certeza no
coração que viu o filho surgir na porta da prisão. Livre como fora educado
numa rua simples de Bagdá. Livre na certeza de continuar a seu lado,
acreditando em um País em Paz e Harmonia. Mais alguns passos e lá estava
ela nos braços dele, que a acolheram, a consolaram e apaziguaram seu
coração de mãe que nada mais lembrava naquele instante, que mal
compreendera os gestos em sua direção vindos daquele soldado que apontava
para a sua máquina, esquecida em uma de suas mãos.
Foram dois ou três
cliques que ela jamais vai esquecer. Foram dois ou três cliques enquanto
ela ainda abraçava o filho. Foram dois ou três cliques que eternizaram, em
uma única imagem, a falta que o filho lhe fez.
Hoje, quando olha a foto
na cabeceira da sua cama, ela é só agradecimento pelo autor da imagem, um
soldado do qual ela não teve tempo nem de descobrir o nome; ah, sim, com
certeza, ele deve ter filhos, família, saudade.
Um soldado que deve saber
a importância de uma imagem dessas para uma mãe, seja qual for a
nacionalidade, a religião ou o contexto.
Ela tem essa certeza
enquanto admira a foto oficial da liberdade de seu filho, exposta na
cabeceira da cama.
( Crônica escrita pelo
jornalista Manoel Fernandes Neto, editor dos boletins IVE, inspirada pela imagem da Reuters,
publicada no UOL Notícias, em 12 de setembro de 2009. Se alguma imagem da
esperança inspirou você, escreva, comente e envie para a redação do IVE,
crisfernandes@cmminterativa.com.br )
|