Date: October 28th, 2009


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- 10.2009
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Mídia que Constrói - Imagens Inspiradoras

A foto oficial

Aquela mãe iraquiana teve dúvidas antes de abordar o soldado que fazia prontidão defronte à Casa de Detenção. Como solicitar ajuda para uma simples imagem, diante de alguém com responsabilidades tão rígidas? O uniforme, o fuzil último tipo, a pose incontinente.

Não era possível. Era quase certeza de que a resposta seria negativa. Aquela mãe iraquiana era capaz de compreender que aquele soldado estadunidense não ficaria sensibilizado sobre como fora agonizante a ausência do filho em casa. Sua companhia, suas palavras de apoio em um momento tão difícil pelo qual passava o país. Como os dois haviam estreitado sua ligação depois da guerra. O soldado, ela tinha razões para saber, não perderia seu tempo oficial para uma atitude daquelas. Ele não poderia compreender que o filho fora detido injustamente e que nenhum filho diante de uma mãe é culpado.

Mas os momentos da libertação foram se aproximando, a burocracia foi se dissipando, papéis eram verificados inúmeras vezes e ela ainda não havia se decidido a pedir ou não o favor para a foto que guardaria como um dos momentos mais felizes de sua vida, mesmo com todo o recente dissabor.

Tirou a máquina fotográfica que trazia guardada entre os trajes e em lugar seguro na sua casa. Ela a utilizava para registrar os momentos felizes que encontrava no dia a dia, mesmo diante de toda a destruição. Aquela mãe iraquiana tinha plena convicção de que o sofrimento um dia cessaria, por que sabia que sofrimentos um dia acabam; que as lágrimas um dia param de cair; que a saudade e a dor são provisórias. Sim, naquele dia da libertação do filho ela tinha plena certeza de que a dor e a melancolia não são sentimentos permanentes, mas breves manifestações do Universo, para nos proporcionar crescimento, aprendizado e progresso.

E foi com esta certeza no coração que viu o filho surgir na porta da prisão. Livre como fora educado numa rua simples de Bagdá. Livre na certeza de continuar a seu lado, acreditando em um País em Paz e Harmonia. Mais alguns passos e lá estava ela nos braços dele, que a acolheram, a consolaram e apaziguaram seu coração de mãe que nada mais lembrava naquele instante, que mal compreendera os gestos em sua direção vindos daquele soldado que apontava para a sua máquina, esquecida em uma de suas mãos.

Foram dois ou três cliques que ela jamais vai esquecer. Foram dois ou três cliques enquanto ela ainda abraçava o filho. Foram dois ou três cliques que eternizaram, em uma única imagem, a falta que o filho lhe fez.

Hoje, quando olha a foto na cabeceira da sua cama, ela é só agradecimento pelo autor da imagem, um soldado do qual ela não teve tempo nem de descobrir o nome; ah, sim, com certeza, ele deve ter filhos, família, saudade.

Um soldado que deve saber a importância de uma imagem dessas para uma mãe, seja qual for a nacionalidade, a religião ou o contexto.

Ela tem essa certeza enquanto admira a foto oficial da liberdade de seu filho, exposta na cabeceira da cama.

( Crônica escrita pelo jornalista Manoel Fernandes Neto, editor dos boletins IVE, inspirada pela imagem da Reuters, publicada no UOL Notícias, em 12 de setembro de 2009. Se alguma imagem da esperança inspirou você, escreva, comente e envie para a redação do IVE, crisfernandes@cmminterativa.com.br  )
 


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